Bandas cariocas de rua

Esta é uma postagem para os cariocas e também para aqueles que não são cariocas, mas que pretendem, em algum momento, passar um tempo no Rio de Janeiro. Se você trabalha no Centro do Rio ou costuma frequentá-lo, já deve ter visto algumas bandas de rua que se apresentam em locais e horários estratégicos para chamar a atenção de um público mais amplo. Caso ainda não tenha visto, certamente já ouviu falar delas.

Vou dar três recomendações de bandas cariocas de rua que você precisa parar para ouvir e apreciar, se e quando elas por acaso “interromperem” o seu itinerário semanal.

1. Kosmo Coletivo Urbano

kosmo coletivo urbano

Esta é uma banda muito interessante e bem experimental que mistura rock, jazz-fusion e música oriental. A Kosmo apresenta sempre um repertório muito rico, com músicas 100% autorais e bastante inovadoras. O som instrumental do grupo é capitaneado por linhas melódicas de saxofone, mas é possível ouvir, em alguns momentos, solos de guitarra muito bem elaborados e uma “cozinha” bem presente.

O grupo costuma se apresentar no Centro do Rio; já foi possível vê-los tocando no Boulevard Olímpico, espaço revitalizado do Centro que recebeu milhares de turistas durante os Jogos Olímpicos Rio 2016. Além disso, o Kosmo Coletivo Urbano também se apresenta na Saens Peña, em frente a uma das entradas do MetrôRio, em uma calçada parelela à Rua Conde de Bonfim. É uma experiência imperdível e, caso curta o som, você pode levar uma cópia do álbum deles para casa; não costuma custar muito caro e ainda dá pra ajudar a banda.

2. Mr. Severin

O trio carioca Mr. Severin toca o que há de melhor no rock and roll setentista e no blues. Com influências de Jimi Hendrix, Deep Purple e outros artistas contemporâneos destes, o Severin imprime uma sonoridade bem old-school, feroz e técnica às suas músicas, que incluem autorais e covers de Rolling Stones, Eric Clapton e Beatles.

mr severin

Como todo bom power trio, o Mr. Severin é composto por músicos excelentes, que dominam a arte do bom rock and roll; inclusive, todos os três têm seus momentos de destaque. Guitarra, batera e baixo a serviço da música de qualidade e de um super atrativo para os transeuntes que passam pela Rua Nelson Mandela, em Botafogo, também próxima à saída da estação do metrô. Segundo comentários vistos no perfil do Facebook da banda, eles também se apresentam na Rua da Carioca, no Centro do Rio. Garanto sua total satisfação quando parar para assisti-los qualquer dia, despretensiosamente.

3. Astro Venga

Outro power trio bastante conhecido no Rio de Janeiro, o Astro Venga dispensa comentários em relação à sua técnica nos “palcos”. A banda, inclusive, foi convidada para tocar no Rock in Rio de 2017, distribuindo a uma série de fãs doses nada homeopáticas de um rock and roll instrumental, pungente, feroz e nada previsível.

astro vengaAstro Venga “on stage” no Centro do Rio

Enfrentando diversas “chamadas” da Guarda Municipal, o Astro Venga sempre se mostrou resistente às intempéries das ruas, agrupando sempre uma série de trabalhadores em seus horários de almoço ou mesmo pessoas que passavam por ali sem uma razão aparente. O grupo costuma se apresentar na Cinelândia e na Carioca, bem com na Zona Sul do Rio, principalmente na região do Arpoador.

Ano passado, o Astro Venga lançou Transeunte, seu primeiro disco instrumental de estúdio. Nome bem propício, não é mesmo? É possível ouvir o álbum via streaming, nas principais plataformas.

As três bandas têm vídeos e clipes disponíveis no YouTube e em suas páginas nas redes sociais. Se eu fosse você, ia correndo dar uma conferida no som dos caras.

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Resenha – “Unholy sacrifice”, de Jackdevil

“When Heaven closes its gates, the devil awaits!”

Assim começa um dos mais interessantes discos de thrash metal produzido em “terra brasilis” nos últimos cinco ou dez anos. Os maranhenses do Jackdevil lançaram Unholy sacrifice em 2014 e desde então lançaram mais dois discos: Evil strikes again (2015) e Back to the garage (2016). Vamos nos ater ao primeiro mencionado.

Unholy sacrifice reúne o que há de melhor no thrash metal e no heavy metal. Todas as faixas, à exceção de “The coven”, que é um solo de baixo acompanhado de teclados, trazem riffs e solos poderosíssimos de guitarra, além de bateria pungente e linhas de baixo muito marcantes. Aliás, este é um aspecto que destaco como positivo do disco: todos os instrumentos podem ser ouvidos com total clareza; guitarras base, solos, o baixo Rickenbacker roncando em cada faixa, os bumbos “metralhadoras” característicos do thrash, tudo com absoluta nitidez, muito diferente do que algumas bandas de metal vêm fazendo por aí, saturando as guitarras até quase estourarem os falantes de seus Marshall, sem manter o equilíbrio de todo o instrumental.

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Segundo informações da banda para o site Toque no BrasilUnholy sacrifice “é um álbum conceitual inspirado em contos de horror de Stephen King e outros mestres do gênero”. Isso pode ser verificado nas letras das canções, nas quais há diversas referências a personagens desse universo do terror. A própria capa do disco já aponta para essa associação, mostrando um tabuleiro semelhante ao de ouija, que aparece em filmes do gênero, a exemplo de Atividade paranormalOuija: origem do mal.

O som da banda, comandado por André Nadler (voz/guitarra), Renato Speedwolf (baixo), Ricardo “Mukura” Andrade (guitarra solo) e Fernando “Hellboy” Moreira (bateria), já se mostra muito maduro para um primeiro disco. Com influências nítidas de Metallica na fase áurea de Kill ‘em all Ride the lightning, principalmente na elaboração dos solos de guitarra, o Jackdevil imprime uma sonoridade poderosa, marcante, com vocais raivosos, que parecem ser inspirados por James Hetfield. As dobras de guitarras são perfeitas nas faixas “Beastrider” e “Behind the walls”, lembrando muito os solos de músicas do Iron Maiden, como os de “The trooper”. Inclusive, o estilo da banda é muito similar ao do Maiden, principalmente pelos timbres de baixo, que se aproximam bastante do som eternizado por Steve Harris. A sonoridade Maiden também pode ser verificada no solo da faixa “Thrash demons attack”, em que há linhas oitavadas de baixo, à moda Iron Maiden.

“Age of antichrist” se inicia com uma excelente virada na bateria, acompanhada por um ótimo riff de guitarra. Essa faixa, aliás, é uma das melhores do disco, com variações de ritmo e solos de guitarra que fogem ao padrão pentatônico e “fritado” comum ao thrash, dando lugar a uma abordagem melódica e harmônica. Uma outra faixa em que a bateria se destaca é “Killing razors”, com uma virada fenomenal em seu início, pouco antes da entrada dos vocais. Toda a música segue com um acompanhamento incomum da batera, com bumbos duplos que são tão poderosos quanto os riffs da música. “Age” of antichrist” termina com uma microfonia e um acorde de baixo, uma espécie de prenúncio da faixa que vem logo a seguir: “The coven”.

Conforme foi dito anteriormente, “The coven” é um solo de baixo. O solo em si é muito bom, bem produzido, criativo e mais melódico. Apesar da harmonia simples, a música prende o ouvinte por ser uma espécie de continuação da faixa anterior, uma característica muito comum em álbuns conceituais. O único aspecto negativo que pinço em “The coven” (e talvez seja o único em todo Unholy sacrifice) é a base feita pelo teclado para o solo. Não digo que seja ruim em termos de harmonia e composição, mas a execução incomodou este tecladista enferrujado que vos fala (risos); é como se, no momento de tocar, o músico que gravou os teclados não estivesse usando o pedal sustain, o que tira a cadência da passagem de um acorde para o outro. Além disso, o uso de strings (som de cordas, usado para fazer a “cama” nesta faixa) requer muita atenção, pois, a depender do timbre, o som aparece apenas depois de alguns milésimos de segundos do toque nas teclas. Isso acaba quebrando o tempo da música de certa forma, visto que o som aparece depois da marcação do tempo, mesmo que o tecladista tenha tocado seguindo fielmente o metrônomo.

Em suma, Unholy sacrifice obedece certinho à cartilha de um bom álbum de thrash metal: bateria acelerada, vocais imponentes, solos de guitarra muito rápidos e aquele maravilhoso convite ao headbanging. Além disso, algumas faixas têm aqueles contracantos feitos pelos back-vocals que fazem o público participar efetivamente dos shows, com frases curtas e marcantes, bem semelhante ao que o Anthrax faz em “Caught in a mosh” (“Can’t stand it for another day/ I AIN’T GONNA LIVE MY LIFE THIS WAY”). Isso se verifica na faixa “Behind the walls”, no seguinte trecho:

“Insanity

DIE!

Iniquity

THIS!

Brutality

DOWN!

Never leaves behind the walls”

O disco é uma porrada atrás da outra, e não dá nem tempo de parar e pegar um cafezinho (ou uma cerveja, que talvez caia até melhor). Em minhas audições do álbum, percebi que o Jackdevil é um dos bons nomes de peso atuais do thrash nacional, seguindo o caminho aberto pelo Taurus e pelo Korzus, dois gigantes do gênero aqui no Brasil. O disco foi lançado pela Urubuz Records, uma ótima gravadora do underground nacional, com um catálogo bem extenso de bandas da cena rock e metal. Fica aqui uma recomendação para sair da mesmice e para jogar por terra aquele velhos clichês bobos: “o rock morreu”; “não há bandas boas hoje”; “o que presta surgiu nos anos 80”.

 

Dicas de documentários

Uma boa forma de ficar a par de certos movimentos artísticos, culturais e musicais é assistir a documentários que abordem variados temas. A música brasileira é rica em termos de gêneros, artistas e movimentos, mas infelizmente há muitas informações de determinados períodos que se perdem ou que são pouco abordadas pelas grandes mídias. Por isso, no intuito de fazer conhecidos alguns momentos importantes do desenvolvimento da música brasileira, vou indicar três documentários muito interessantes a respeito do tema.

1. Uma noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil (2010)

Este documentário mostra os bastidores culturais e melhores momentos do III Festival de Música da TV Record, que serviu como uma espécie de pano de fundo das transformações artístico-culturais ocorridas no Brasil no fim dos anos 1960. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo e Os Mutantes são alguns dos principais personagens dessa obra, participantes de um festival que avaliaria composição, letra, harmonia e outros aspectos de cada uma das canções.

uma noite em 67

Com a Invasão Britânica, desenvolveu-se no Brasil um movimento de contracultura, a Tropicália, inspirado no “Verão do Amor” e no Woodstock. Influenciados pelos Beatles, os argentinos do Beach Boys acompanharam Caetano Veloso na canção “Alegria, Alegria”, o que causou represálias de nomes e adeptos da MPB e da bossa nova, já decadentes no período; isso se deu em razão de ser impensável um artista da música popular ser acompanhado por uma banda de rock, cujo instrumento mais icônico, a guitarra elétrica, representava o imperialismo e “todo o lixo de rock” americanos, para os mais ortodoxos da MPB. A passeata contra a guitarra elétrica, inclusive, ocorreu nesse mesmo período, contando com nomes como o de Jair Rodrigues e de Nara Leão. Este episódio é mostrado no documentário e comentado por artistas e pessoas envolvidas que estiveram presentes na passeata.

passeata-contra-guitarra-elétrica Imagem da passeata contra a guitarra elétrica (1967). À direita, é possível ver Elis Regina, Jair Rodrigues, Gilberto Gil e Edu Lobo, grandes nomes da MPB na época. 

Uma noite em 67 ilustra o desenvolvimento do rock no Brasil e a contemporânea queda da MPB enquanto estilo, visto que alguns artistas estavam mais abertos às influências estrangeiras tanto no que dizia respeito ao estilo musical quanto em termos de ideologia e contestação ao status quo. O desenvolvimento musical da década seguinte é minuciosamente descrito no documentário recomendado a seguir.

2. Rock Brasil 70 – Viagem progressiva, de Ana Paula Minari, Bruno Rizzato Rodrigues, Guilherme Machioni, João Figueiredo, Tábata Porti e Thiago Mourato (2013)

rock progressivo brasileiro é um dos estilos menos comentados nas rodas de conversa a respeito de música nacional. Os que o conhecem são poucos; além disso, boa parte das discografias já saíram de catálogo, o que torna mais difícil ainda o contato com artistas do gênero.

Com o objetivo de trazer à luz o que foi o progressivo nacional, suas influências e sua relevância, Rock Brasil 70 mostra entrevistas feitas com os principais nomes do gênero ainda vivos, que expuseram as dificuldades pelas quais passaram na época de gravação de seus discos e na produção dos shows. Essas dificuldades decorriam de dois principais problemas: primeiro, a defasagem técnica no que diz respeito aos aspectos de gravação, produção e mixagem de discos; músicos como Guilherme Arantes comentam o atraso do Brasil na produção de LPs e na elaboração de instrumentos musicais de qualidade, ressaltando que o que era produzido no estrangeiro era muito melhor, contudo mais caro; segundo, vale lembrar que o rock progressivo brasileiro floresceu no decorrer da Ditadura Militar; logo, muitos artistas da época tiveram suas canções submetidas à censura, que as consideravam subversivas.

Influenciados por Genesis, Jethro Tull e Yes, bandas como O Terço, Bacamarte, Recordando o Vale das Maçãs e Violeta de Outono ainda permanecem numa espécie de obscurantismo do rock brasileiro, que tem os anos 1980 considerados por boa parte da  crítica e pelos fãs como seu apogeu e melhor fase. Assim, Rock 70 cumpre bem o objetivo de revelar a nós, os fãs, esse gênero tão bem tocado e pouco abordado no país. E para complementar esta recomendação, sugiro também que acompanhem no Spotify a playlist Brazilian Prog do Som em Pauta. Lá vai ser possível ter contato com alguns dos principais nomes do rock progressivo brasileiro.

3. Palavra (en)cantada, de Helena Solberg (2008)

Calcado na interdisciplinaridade, Palavra (en)cantada aborda música e poesia, bem como a influência desta naquela. Há diversas entrevistas com grandes nomes da música popular brasileira, como Adriana Calcanhoto, Maria Bethânia, Lenine, entre outros, e cada um deles comenta a relação entre letra e música, desvendando segredos linguístico-poéticos imbrincados em suas canções e revelando suas preferências literárias, assim como suas influências nas composições.

No documentário, o limite temporal é inexistente, pois a narrativa vai de Chico Buarque a Ferréz, passando por Arnaldo Antunes e outros nomes expressivos. Nele, o aspecto poético, em alguns momentos, é até mais valorizado que a própria música, mas traz uma perspectiva muito bacana sobre o processo de composição de cada artista, bem como o impacto da poesia sobre cada um deles.

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Para estudantes de Literatura ou simpatizantes do tema, Palavra (en)cantada é um documentário quase imprescindível, visto que revela e aborda o “par perfeito” da poesia desde o período homérico: a música.

Vinil: realmente tão bom como dizem?

Em agosto do ano passado, fiz uma pesquisa via formulários do Google para mapear quais eram as mídias e os formatos preferidos de ouvintes de música. Fui a três diferentes grupos no Facebook a fim de buscar participantes para a pesquisa: o Colecionadores de discos, o Collector’s Room – O grupo e o UERJ Letras/Livre, formado por alunos de graduação em Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Além disso, divulguei o formulário no meu feed pessoal, o que aumentaria as possibilidades de respostas, bem como a variedade de formatos escolhidos. Indiquei os formatos streaming, CD e vinil para que pudessem marcar o de sua preferência e explicar as razões da escolha. Contudo, deixei espaço para que os pesquisados pudessem citar outras formas de ouvir música, o que rendeu porcentagens baixíssimas de usuários. Foram 69 informantes, que ficaram divididos desta forma:

  • 28 preferem ouvir música por streaming (Spotify, Deezer, YouTube, entre outros), representando uma porcentagem de 40,6% do total;
  • 19 preferem ouvir música em CD, representando 27,5% do total;
  • 16 preferem ouvir música em vinil, quantidade que representa 23,2% do total de ouvintes pesquisados;
  • 2 usuários ouvem música a partir de downloads do formato mp3, representando 2,8% do total;
  • 1 ouvinte indicou a opção pelo formato minidisc, representando 1,4% do total;
  • 1 ouvinte indicou a opção smartphone, mas não deixou claro se ouve música a partir de downloads de arquivos em mp3 ou se usa algum serviço de streaming (1,4%);
  • 1 usuário indicou os formatos CD e streaming (“Eu escuto música em CD, e também gosto de fazer coleção do mesmo, mas também escuto muito streaming de música, a praticidade é o ponto forte desse formato”), representando 1,4% do total;
  • 1 usuário indicou o formato arquivos mp3 de 320 kbps extraídos dos CDs de sua coleção (“Praticidade em ter toda a coleção em um HD externo; Possibilidade de escutar em CD quando quiser; Possuir a mídia e a arte; Ajudar o artista.”), representando 1,4% do total de pesquisados;
  • por fim, 1 ouvinte indicou o formato mp3 como o preferido, mas não deixou claro se os arquivos são obtidos a partir de downloads ou se são extraídos de CDs físicos (1,4%).

Apesar de a totalidade da pesquisa ser bastante interessante, vamos nos deter apenas ao terceiro grupo de informantes, isto é, aqueles que têm o vinil como mídia favorita para ouvir música. As razões dadas para a escolha foram diversas, mas muito semelhantes entre si. Veja:

  • “Qualidade superior na reprodução da gravação”;
  • “Qualidade, nostalgia”;
  • “Gosto da sonoridade da prensagem da época”;
  • “A originalidade de como a música é reproduzida para ouvir”.

Há outras explicações, mas estas estão em uma espécie de pacote de razões pelas quais audiófilos e vinilófilos preferem o vinil como suporte. Em grupos de colecionadores de discos, não é raro vermos discussão a respeito dos melhores formatos, os que reproduzem fielmente a música tal como ela foi gravada em sua época. Também não é rara a quantidade de ouvintes que defendem como podem a ideia de que o vinil capta perfeitamente a sonoridade de um artista, tal como ela foi tocada em estúdio.

Não vejo razões que impeçam um ouvinte de preferir o vinil como formato favorito, a não ser, é claro, os preços abusivos que vêm sendo cobrados por LPs em grandes lojas de varejo e – pasmem – em sebos. Ainda assim, fica a critério do comprador adquirir novas prensagens em vinil de 180 gramas, mesmo que isso lhes custe uma nota. O grande incômodo resultante de discussões acaloradas entre colecionadores advém do fato de a suposta qualidade superior do vinil ser quase uma unanimidade entre seus fiéis súditos, mesmo que, para que chegassem a tal conclusão, abrissem mão de pesquisas técnicas feitas com aparelhagem específica capaz de avaliar se um formato tem, de fato, perdas relevantes ou não no momento das prensagens ou, no caso do LP, do corte (passagem dos dados gravados na fita máster para os sulcos do disco de vinil).

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À medida que procuro por opiniões de artistas e profissionais como produtores e engenheiros de som, vejo que essa discussão tem sua razão de ser restrita ao universo dos colecionadores. Veja bem, não quero de forma alguma desprezar os conhecimentos que os fãs de vinil adquiriram ao longo dos anos com pesquisas a respeito do tema, mas não podemos ignorar que há uma série de profissionais que lidam com isso quase 24 horas por dia, 7 dias por semana. Portanto, suas visões sobre o assunto estão calcadas em experiências comprovadas de gravação de álbuns, independentemente das mídias em que foram gravados. Leia, a seguir, um trecho de 30 anos de música, biografia de Rick Bonadio, um dos maiores produtores brasileiros em termos de marketing e caça-talentos:

“(…) o que chamamos de corte é a fabricação do acetato, que será a matriz por onde serão produzidas (prensadas)todas as cópias daquele disco. O responsável corta os sulcos, por onde a agulha passará, para montar a matriz.

Mesmo com todo cuidado do mundo, foi minha primeira decepção, pois você mandava um som e voltava outro. Bem diferente do que você tinha ouvido em estúdio. O vinil nunca representou para mim o som de verdade do estúdio. Por isso nunca dei tanto valor para essa discussão de audiófilos de formato versus formato.”

Essa visão técnica e entristecida é endossada pelo apresentador, produtor e ex-baterista dos Titãs Charles Gavin, em entrevista concedida ao canal do YouTube Vitrola Verde, de seu irmão César Gavin. Em um trecho, Charles comenta a respeito de suas produções e diz o seguinte a respeito da gravação do primeiro disco da banda Detrito Federal:

“(…) em estúdio, a princípio, ele (o disco) ainda tinha um som bom, mas faltava uma etapa, que era o corte do disco. O desleixo foi tanto que a masterização, o som disso aqui, não ficou bom. O som é ruim, frustrou a banda e me frustrou também. (…) Quando o pessoal do Detrito Federal pegou o vinil e foi ouvir, não era aquilo que eles estavam ouvindo em estúdio.

Com essas duas visões, percebemos que a afirmação de que o vinil reproduz fielmente o que foi gravado é bastante questionável. Outro elemento que também põe em xeque a superioridade sonora do vinil é a baixa qualidade do material de que ele costumava ser feito no Brasil, principalmente nos anos 1970. Guilherme Arantes, do Moto Perpétuo, diz o seguinte em entrevista para o documentário Rock Brasil 70 – viagem progressiva:

“Os discos não eram bons porque os estúdios eram ruins e o vinil nacional era só asfalto (…); ele só estalava, não tinha som nenhum.”

No mesmo documentário, Motta, do Recordando o Vale das Maçãs, diz o seguinte, ainda questionando a suposta superioridade do vinil:

“O Recordando ( o Vale das Maçãs) era bom ao vivo. Eu nunca achei que aquele LP representasse tão fielmente o som que a gente fazia.”

Meu grande questionamento é este: será que álbuns gravados em CD e Ogg Vorbis (formato utilizado no Spotify, por exemplo) têm realmente tantas perdas se comparados à sua gravação em vinil? E se elas realmente existirem, afetam tanto a qualidade do áudio ao ponto de que se “percam” elementos relevantes para a produção do disco? Stephen Witt, em seu livro Como a música ficou grátis, traz um debate interessante a respeito dessas “perdas” sonoras.

A ideia fundamental para o desenvolvimento do mp3 nos anos 1980 era o fato cientificamente comprovado de que o ouvido humano não é capaz de ouvir tudo perfeitamente, isto é, há certas frequências que não podem ser alcançadas por nós. Assim, tais frequências passam despercebidas. Se o ouvido humano não consegue captar todos os sons, por que manter músicas com frequências que passam batido por qualquer um, ocupando espaço e tornando arquivos ainda mais pesados? A ideia do mp3 era a compressão de arquivos e a sua transmissão de modo rápido e prático, como menos bytes do que continham os arquivos gravados em CD. Em suma, o grande questionamento feito por hackers e cientistas era este: se o ouvido humano dispensa determinada quantidade de frequência, por que não tirá-las das músicas, tornando assim os arquivos mais leves e fáceis de serem transmitidos? Ao fim e ao cabo, estaríamos ouvindo músicas em mp3 com a mesma qualidade do CD, conclusão a que chegaram os cientistas do Fraunhofer, que eram audiófilos e dispunham de equipamentos de áudio ultraprecisos.

Tá, mas e o vinil? A meu ver, a louvação exacerbada sobre os LPs dizem mais respeito à memória afetiva que eles evocam, bem como em razão do tamanho ampliado das artes das capas. De fato, é maravilhoso, enquanto se escuta um disco, ler de modo nítido informações a respeito dos músicos, do processo de gravação, datas, etc. Não sou um inimigo do vinil, pelo contrário. Gosto bastante de ouvir os poucos que tenho, é de fato uma atividade prazerosa manipulá-lo para trocar os lados. Este, aliás, é outro argumento que considero bem válido para justificar a preferência pelos bolachões; muitos comentam a respeito da forma como “interagem com a música” ao ouvir um disco, mexendo não só com a audição, mas também com tato e olfato (só eu me atento ao cheiro dos discos e das capas?). Por fim, penso que, à luz das opiniões de especialistas no tema, dizer que “o som do vinil é melhor” não passa de juízo de valor, visto que tal premissa pode ter como base uma série de questões que estão para além do som que emerge a partir da leitura dos sulcos. Não é um assunto que se pretende esgotado; é apenas um outro ponto de vista sujeito a (constantes) revisões e debates.

Vou deixar aqui os vídeos nos quais me baseei para formular este texto, bem como a referência dos livros que citei:

WITT, Stephen. Como a música ficou grátis. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2015.

BONADIO, Rick. 30 anos de música. São Paulo: Seoman, 2016.

 

Resenha – “The Whippoorwill”, Blackberry Smoke

Chegamos a 2019 com pelo menos uma certeza: aqueles que gostam de música em algum momento vão ouvir que o rock morreu, ou que rock bom era aquele tocado nos anos 1980, ou afirmações semelhantes. Constatações desse tipo são tristes porque de certa forma menosprezam uma série de bons artistas, sejam solo ou em bandas, que surgiram nos anos 2000 representando o gênero mencionado, isto é, o rock em suas variadas vertentes. Um dos nomes mais prolíficos dessa geração, a meu ver, é o Blackberry Smoke, grupo formado em Atlanta – Geórgia no início deste milênio. Com um southern rock característico da região de origem da banda, o Smoke tem nove álbuns em sua discografia, contando bootlegs e EPs. Vamos falar aqui a respeito do terceiro, The whippoorwill, de 2012.

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Não posso deixar de mencionar que, sem dúvidas, The whippoorwill é um dos melhores álbuns de rock produzidos de dez anos para cá que já ouvi. Bem produzido, o disco possibilita uma viagem ao que de melhor já foi feito em termos de southern rock, sem, no entanto, excluir a qualidade artística e a inventividade do Blackberry Smoke em cada uma das 13 faixas. “Six ways to sunday”, a primeira, abre o disco com um riff que remete bem à sonoridade de bandas setentistas como o Lynyrd Skynyrd e The Outlaws, o que é ratificado pelas linhas maravilhosas de piano, que abrilhantam toda a canção, tal como podemos ouvir em “Sweet home alabama”, do Skynyrd. Aliás, um dos elementos que mais marcam em The whippoorwill é justamente o plus dos pianos e órgãos em todas as faixas, algumas das quais eles têm maior destaque em razão dos solos (“Everybody knows she mine” e “Crimson moon”). Brandon Still, o tecladista, capturou bem a ambiência dos saloons texanos (honky-tonk) do imaginário popular, nos quais bebuns cantam e se divertem ao som do piano.

Charlie Starr, vocalista e guitarrista solo, apresenta um timbre de voz marcante, acompanhado por Paul Jackson nas guitarras e nos vocais de apoio. Em todas as músicas do disco as linhas vocais são ótimas, com variações e dobras de vozes, elemento característico do rock sulista norte-americano. Os solos de guitarra de Starr também são muito criativos e muitas vezes fogem do padrão bluesyrock and roll que são marcantes no grupo. Isso é possibilitado, entre outros fatores, pela riqueza harmônica das canções, que não se limitam a acordes maiores com sétima menor com base em escalas pentatônicas, muito usados no blues e no rock setentista.

Vale destacar dois elementos muito criativos em The whippoorwill. O primeiro deles é a presença de um banjo na canção “Leave a scar”, que se inicia com riff bem marcante de rock an roll. Nesse caso, o banjo contribuiu ainda mais para imprimir uma sonoridade country ao som, lembrando muito as canções do grupo curitibano Hillbilly Rawride, o que não necessariamente representa uma influência direta de um sobre outro. Ainda nesta canção, há um jogo muito interessante entre as duas guitarras na ponte que antecede o solo de guitarra, “chamado” por um assobio; neste trecho, enquanto uma das guitarras marca com stacatto os acordes, a outra a acompanha fazendo os mesmos acordes soarem. O segundo elemento que chamou a atenção em todo o disco diz respeito à faixa “Ain’t got the blues”, que certamente agradará aos fãs do som analógico. A música começa como se um toca discos estivesse lendo um LP ligeiramente empoeirado, com aquele famoso chiado que agrada a alguns e é motivo de raiva para outros. A sonoridade vintage é certamente uma novidade em se tratando de bandas atuais, pois, apesar de muitas preferirem suas gravações com aparelhagem analógica, nem todas conseguem imprimir um approach setentista ou oitentistaAlém disso, “Ain’t got the blues” tem uma harmonia bem rica, com ótimos licks de blues, além do uso do slide nos solos de violão.

A dinâmica bluesy é também um elemento muito bem empregado em The whippoorwill; as variações de dinâmica entre as estrofes e o refrão de “Lucky seven” são bem marcantes, a ponto de fazer o ouvinte imaginar que a canção continuará forte depois do refrão. O que ocorre, contudo, é uma mudança brusca de dinâmica, que deixa a canção mais soft nas estrofes, com ótimas linhas de piano blues.

Há duas baladas no disco: “One horse town”, faixa que ganhou uma versão acústica maravilhosa da banda (vídeo abaixo), e “Up the road”, canção que fecha o disco e é conduzida muito bem pelo piano. Pode-se até dizer que The whippoorwill tem um apelo comercial, talvez até um pouco maior que os demais álbuns da discografia, mas em nada perde em qualidade, técnica e composição.

O Blackberry Smoke em nenhum momento esconde suas influências: o southern rock do Lynyrd Skynyrd, o rock and roll texano do ZZ Top em faixas como “Shakin’ hands with the Holy Ghost” e mesmo o hard rock setentista de bandas como Deep Purple são o norteador do grupo, que ainda agrega elementos do blues e do country sem, no entanto, deixar o som datado. É uma excelente porta de entrada ao southern rock e, além de tudo, uma ótima oportunidade de conhecer uma das mais criativas bandas de rock dos anos 2000.

Faixas:

1 – Six ways to sunday

2 – Pretty little lie

3 – Everybody knows she mine

4 – One horse town

5 – Ain’t much left of me

6 – The whippoorwill

7 – Lucky seven

8 – Leave a scar

9 – Crimson moon

10 – Ain’t got the blues

11 – Sleeping dogs

12 – Shakin’ hands with the Holy Ghost

13 – Up the road

 

 

 

“Piano odyssey”, novo disco de Rick Wakeman, será lançado em 14 de outubro

O mago das teclas está de volta! Em 14 de outubro será lançado o novo disco de Rick Wakeman, Piano odyssey. Ontem, 14 de setembro, foi liberada uma single do álbum nas plataformas de streaming; trata-se de “Cyril wolverine”, faixa em que é possível notar belos arranjos orquestrados, elaborados pelo próprio Wakeman, que acompanham o approach clássico tão peculiar de seu piano.

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Disponível no site rrwc.com

Piano odyssey será o primeiro disco de Rick Wakeman lançado pelo selo Sony Classical, surgido em 1990 divulgando uma série de artistas contemporâneos e clássicos de música erudita. O ex-tecladista do Yes agregará à sua rica discografia mais uma obra que promete ser maravilhosa e abrangerá canções do Queen, de David Bowie e de Franz Liszt, tudo em um só álbum, cada qual com seus devidos rearranjos. Outras informações mais pontuais podem ser encontradas no site do músico. Não perca a data: 14 de outubro. Ouça um trecho de “Cyril wolverine”:


Tracklist:

  1. While My Guitar Gently Weeps
  2. Liebesträume / After The Ball
  3. And You & I
  4. Rocky (The Legacy)
  5. The Boxer
  6. The Wild Eyed Boy From Freecloud
  7. Strawberry Fields Forever
  8. Roundabout
  9. Cyril Wolverine
  10. Jane Seymour
  11. Largos
  12. Bohemian Rhapsody

 

Blue Note Rio terá tributo à Motown

O Blue Note Rio receberá, na noite de 2 de novembro, o Motown Classics Tributo, com a banda carioca Go Black. O tributo abrangerá a fase clássica da Tamla-Motown, gravadora criada por Barry Gordy no fim dos anos 1950, que foi casa de artistas como Marvin Gaye, Diana Ross, The Marvelettes, Jackson 5 e Stevie Wonder, apenas para mencionar alguns nomes. A Motown foi fundamental para a consolidação da black music nos anos 1960 e de suas vertentes, como o soul e o R&B, nos anos subsequentes.

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Disponível no perfil do Blue Note Rio no Facebook

Receptor de shows de artistas nacionais, como Ed Motta, e internacionais, como Chick Corea e sua Elektric Band, o Blue Note é o clube de jazz de maior renome no estado do Rio, buscando resgatar o ambiente boêmio dos clubes de jazz norte-americanos, principalmente de New Orleans, cidade considerada o berço do gênero. O nome da casa é uma homenagem ao maior selo musical de jazz, a Blue Note, responsável pelo lançamento do primeiro disco solo de Herbie Hancock, Takin’ off, entre outros.

O tributo à Motown será dia 2 de novembro, às 22:30 horas, e os ingressos estão à venda no site do Blue Note Rio.