Um gênio à semimargem da Tropicália

É impossível pensar no anos 60 sem que nos lembremos da efervescência política e cultural que marcou o Brasil nesse período. Com a ditadura militar, uma das formas de combater ideais retrógrados e limitantes era o investimento (não necessariamente financeiro) em cultura, isto é, cinema, música, teatro, entre outros.

A Tropicália foi resultado concreto da abertura popular e cultural ao que se produzia no estrangeiro, processo iniciado com o Modernismo quarenta anos antes. Tropicalia ou panis et circenses foi a síntese do que os artistas desse movimento produziram na época. O disco, lançado em 1968, reúne traços da música popular e regional, da música erudita e do rock britânico emergente; vale lembrar que, um ano antes, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band era concebido, o que tornou ainda mais conhecidos os Garotos de Liverpool, como eram chamados os Beatles, revolucionou a forma de pensar o rock a partir de então e serviu de influência direta não só para a Tropicália, mas para as bandas de rock que surgiam naquele momento.

Tropicalia

Disponível em: https://www.discogs.com/

Ao olhar a capa de Tropicalia, é fácil reconhecer alguns rostos: logo em primeiro plano está Gilberto Gil; atrás, segurando um porta-retratos, Caetano; mais atrás, Rita Lee e os Mutantes. É possível que as pessoas nunca tenham se perguntado quem é o homem à esquerda, sentado de pernas cruzadas e segurando uma xícara que parece não caber em suas mãos. O mais interessante é que, a despeito de quase sempre passar batido, a referida figura foi fundamental para a música brasileira, especialmente na década de 1960. Trata-se de Rogério Duprat, arranjador, compositor e violoncelista formado em Música pela Villa-Lobos.

A música brasileira deve muito a Duprat, tanto quanto deve aos outros artistas do movimento tropicalista. Em termos técnicos, ele talvez tenha sido o sucessor de Villa-
-Lobos no que diz respeito a atar o erudito ao popular, criando uma sonoridade até então pouco ou nada experimentada pelos artistas brasileiros, que ainda tentavam se desvencilhar da bossa nova surgida anos antes. Duprat foi fundamental para Tropicalia, pois foi ele quem elaborou os arranjos e orquestrações de todas as faixas. “Coração materno” soa maravilhosamente bela mais por seus arranjos pensados para cordas do que pela voz insossa de Caetano Veloso, intérprete da canção.

Mas o trabalho de Rogério Duprat não fica restrito ao disco em questão. Ainda em 1968, em parceria com os Mutantes e outros artistas, veio ao mundo A banda tropicalista do Duprat, mais uma obra prolífica e vanguardista, com orquestrações, arranjos de metais, pitadas de rock inglês, baião, chorinho, frevo, bossa nova e MPB. O disco é de uma riqueza musical de impressionar, mas possivelmente o país ainda devia estar tão balançado com os artistas da Tropicália que o deixaram de lado. Vale lembrar que, no
III Festival de Música da TV Record, de 1967, Rogério Duprat foi vencedor na categoria melhor arranjo, para a canção “Domingo no parque”, interpretada por Gilberto Gil à época.

Duprat

Disponível em: https://www.discogs.com/

Em 1971, Duprat participou como arranjador no disco Jardim elétrico, dos Mutantes, bem como teve participação em outras obras posteriores. Seu legado está, conforme diz o Manifesto Música Nova, de 1963, no “compromisso total com o mundo contemporâneo”. Reafirmo: a música brasileira deve demais a muitos gênios que ficaram nos bastidores, e nosso trabalho será sempre de fazê-los conhecidos por seu rico trabalho artístico.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s