Resenha – “Unholy sacrifice”, de Jackdevil

“When Heaven closes its gates, the devil awaits!”

Assim começa um dos mais interessantes discos de thrash metal produzido em “terra brasilis” nos últimos cinco ou dez anos. Os maranhenses do Jackdevil lançaram Unholy sacrifice em 2014 e desde então lançaram mais dois discos: Evil strikes again (2015) e Back to the garage (2016). Vamos nos ater ao primeiro mencionado.

Unholy sacrifice reúne o que há de melhor no thrash metal e no heavy metal. Todas as faixas, à exceção de “The coven”, que é um solo de baixo acompanhado de teclados, trazem riffs e solos poderosíssimos de guitarra, além de bateria pungente e linhas de baixo muito marcantes. Aliás, este é um aspecto que destaco como positivo do disco: todos os instrumentos podem ser ouvidos com total clareza; guitarras base, solos, o baixo Rickenbacker roncando em cada faixa, os bumbos “metralhadoras” característicos do thrash, tudo com absoluta nitidez, muito diferente do que algumas bandas de metal vêm fazendo por aí, saturando as guitarras até quase estourarem os falantes de seus Marshall, sem manter o equilíbrio de todo o instrumental.

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Segundo informações da banda para o site Toque no BrasilUnholy sacrifice “é um álbum conceitual inspirado em contos de horror de Stephen King e outros mestres do gênero”. Isso pode ser verificado nas letras das canções, nas quais há diversas referências a personagens desse universo do terror. A própria capa do disco já aponta para essa associação, mostrando um tabuleiro semelhante ao de ouija, que aparece em filmes do gênero, a exemplo de Atividade paranormalOuija: origem do mal.

O som da banda, comandado por André Nadler (voz/guitarra), Renato Speedwolf (baixo), Ricardo “Mukura” Andrade (guitarra solo) e Fernando “Hellboy” Moreira (bateria), já se mostra muito maduro para um primeiro disco. Com influências nítidas de Metallica na fase áurea de Kill ‘em all Ride the lightning, principalmente na elaboração dos solos de guitarra, o Jackdevil imprime uma sonoridade poderosa, marcante, com vocais raivosos, que parecem ser inspirados por James Hetfield. As dobras de guitarras são perfeitas nas faixas “Beastrider” e “Behind the walls”, lembrando muito os solos de músicas do Iron Maiden, como os de “The trooper”. Inclusive, o estilo da banda é muito similar ao do Maiden, principalmente pelos timbres de baixo, que se aproximam bastante do som eternizado por Steve Harris. A sonoridade Maiden também pode ser verificada no solo da faixa “Thrash demons attack”, em que há linhas oitavadas de baixo, à moda Iron Maiden.

“Age of antichrist” se inicia com uma excelente virada na bateria, acompanhada por um ótimo riff de guitarra. Essa faixa, aliás, é uma das melhores do disco, com variações de ritmo e solos de guitarra que fogem ao padrão pentatônico e “fritado” comum ao thrash, dando lugar a uma abordagem melódica e harmônica. Uma outra faixa em que a bateria se destaca é “Killing razors”, com uma virada fenomenal em seu início, pouco antes da entrada dos vocais. Toda a música segue com um acompanhamento incomum da batera, com bumbos duplos que são tão poderosos quanto os riffs da música. “Age” of antichrist” termina com uma microfonia e um acorde de baixo, uma espécie de prenúncio da faixa que vem logo a seguir: “The coven”.

Conforme foi dito anteriormente, “The coven” é um solo de baixo. O solo em si é muito bom, bem produzido, criativo e mais melódico. Apesar da harmonia simples, a música prende o ouvinte por ser uma espécie de continuação da faixa anterior, uma característica muito comum em álbuns conceituais. O único aspecto negativo que pinço em “The coven” (e talvez seja o único em todo Unholy sacrifice) é a base feita pelo teclado para o solo. Não digo que seja ruim em termos de harmonia e composição, mas a execução incomodou este tecladista enferrujado que vos fala (risos); é como se, no momento de tocar, o músico que gravou os teclados não estivesse usando o pedal sustain, o que tira a cadência da passagem de um acorde para o outro. Além disso, o uso de strings (som de cordas, usado para fazer a “cama” nesta faixa) requer muita atenção, pois, a depender do timbre, o som aparece apenas depois de alguns milésimos de segundos do toque nas teclas. Isso acaba quebrando o tempo da música de certa forma, visto que o som aparece depois da marcação do tempo, mesmo que o tecladista tenha tocado seguindo fielmente o metrônomo.

Em suma, Unholy sacrifice obedece certinho à cartilha de um bom álbum de thrash metal: bateria acelerada, vocais imponentes, solos de guitarra muito rápidos e aquele maravilhoso convite ao headbanging. Além disso, algumas faixas têm aqueles contracantos feitos pelos back-vocals que fazem o público participar efetivamente dos shows, com frases curtas e marcantes, bem semelhante ao que o Anthrax faz em “Caught in a mosh” (“Can’t stand it for another day/ I AIN’T GONNA LIVE MY LIFE THIS WAY”). Isso se verifica na faixa “Behind the walls”, no seguinte trecho:

“Insanity

DIE!

Iniquity

THIS!

Brutality

DOWN!

Never leaves behind the walls”

O disco é uma porrada atrás da outra, e não dá nem tempo de parar e pegar um cafezinho (ou uma cerveja, que talvez caia até melhor). Em minhas audições do álbum, percebi que o Jackdevil é um dos bons nomes de peso atuais do thrash nacional, seguindo o caminho aberto pelo Taurus e pelo Korzus, dois gigantes do gênero aqui no Brasil. O disco foi lançado pela Urubuz Records, uma ótima gravadora do underground nacional, com um catálogo bem extenso de bandas da cena rock e metal. Fica aqui uma recomendação para sair da mesmice e para jogar por terra aquele velhos clichês bobos: “o rock morreu”; “não há bandas boas hoje”; “o que presta surgiu nos anos 80”.

 

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