Rock e literatura: discos inspirados em livros

A relação entre música e literatura não é nenhuma novidade; os estudos literários abordam incessantemente essa associação, que vem desde os tempos homéricos, passando pelos trovadores dos séculos XIII e XIV e chegando até nós hoje, com artistas que elevam suas composições a um patamar de poesia quase inquestionável para alguns.

Nesta postagem, vou elencar três discos que foram livremente inspirados em clássicos da literatura universal; vale destacar que nem todos são conceituais, apesar de seus títulos ou de suas canções indicarem isso de alguma forma. Essa lista, como qualquer outra que trata de música, de modo algum se pretende encerrada; trouxe apenas três álbuns como exemplo, mas há uma série deles.

1. Excalibur, Grave Digger (1999)

Excalibur é um disco conceitual livremente inspirado nas novelas de cavalaria do Ciclo Arturiano, que conta as histórias do Rei Artur e de seus fiéis escudeiros na luta em busca e na proteção do Santo Graal, bem com da fé cristã. As histórias datam dos séculos XIII e XIV, posteriores às conhecidas cantigas de amor e de amigo portuguesas e provençais, e já foram adaptadas de diversas formas, a exemplo da obra As brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley, que reconta as lendas de Artur na visão feminina, assim como dos filmes Rei Arthur, de 2004, estrelado por Clive Owen, e Rei Arthur: a lenda da espada, de 2017. Os alemães do Grave Digger contam histórias de diversos personagens dessas lendas, como Lancelot, o mago Merlin e Guinevère, exaltando o companheirismo e a lealdade dos cavaleiros em canções como “The round table (forever)”. Vale destacar, contudo, que, apesar de Excalibur ser conceitual, as faixas são independentes entre si, isto é, não integram uma ópera-rock.

excalibur

O som da banda neste disco traz uma pegada power speed metal, com passagens instrumentais que ressaltam ainda mais o caráter épico da obra. As lendas do Rei Artur e dos cavaleiros da Távola Redonda já haviam sido abordadas também por Rick Wakeman, em seu disco The myths and legends of King Arthur and the knights of the Round Table, de 1975.

2. Leviathan, Mastodon (2004)

Para a crítica e para os fãs, o Mastodon é um dos nomes mais criativos do rock surgido nos anos 2000. Sua discografia já é extensa, e Emperor of sand foi considerado um dos melhores discos de 2018 por uma série de veículos especializados em música. Pois bem; vamos voltar a 2004, quando o grupo lançou Leviathan, disco conceitual inspirado em Moby Dick, de Herman Melville, um clássico da literatura publicado em 1851.

Muro do Classic Rock

Moby Dick é uma obra que põe em questão a relação do ser humano com a natureza, não só a selvagem, mas o meio ambiente de maneira geral. A história gira em torno de uma cachalote branca que é fortemente caçada por pescadores, o que a leva a atacá-los e feri-los gravemente. Os personagens principais são o Capitão Ahab, Ismael, Stubb, Capitão Boomer, Starbuck, Elijah, Queequeg e, claro, a cachalote Moby Dick. A capa de Leviathan (nome pelo qual a cachalote também é conhecida na cultura popular, principalmente pela obra Leviatã, de Thomas Hobbes) representa a grande baleia branca emergindo dos mares colocando em perigo uma embarcação. As faixas abordam em detalhes diversos aspectos concernentes às caças marítimas, como os desafios dos barqueiros, as armas utilizadas para a caça, as condições do mar, entre outros.

Leviathan reúne aspectos do heavy metal tradicional, com riffs marcantes, a exemplo de “Blood and thunder”, música que abre o disco, e elementos progressivos, passagens instrumentais complexas, tempos quebrados de bateria e mudanças de andamento (“Aqua dementia”). Talvez seja uma boa indicação para começar a conhecer a discografia do Mastodon. À semelhança de Excalibur, Leviathan também não é uma ópera-rock. Só a nível de curiosidade, “Moby Dick” é, também, uma das faixas do disco Led Zeppelin II; é uma música instrumental em que se destacam a bateria de John Bonham e o riff espetacular de Jimmy Page.

3. Journey to the centre of the Earth, Rick Wakeman (1974)

Um ano depois de o Yes lançar a obra-prima Tales from topographic oceans (1973), Rick Wakeman, o “mago” e tecladista da banda, trouxe ao mundo seu segundo disco solo, Journey to the centre of the Earth. O petardo pôs em parafusos a gravadora A&M, que não queria arcar com os custos altíssimos da gravação, que envolvia banda de rock, narrador e orquestra completa.

Muro do Classic Rock

Uma solução foi encontrada para que se gravasse Journey…: o disco deveria ser gravado ao vivo, para que os custos fossem menores, e assim foi. O álbum é inspirado no livro Viagem ao centro da Terra, do francês Júlio Verne (1864), um dos maiores nomes do gênero ficção científica; são dele também obras como Vinte mil léguas submarinas e Volta ao mundo em 80 dias. Segundo a revista Roadie Crew, edição 220, “A fascinação do tecladista pela saga do professor Lindenbrok, de seu sobrinho Axel e do guia Hans, que encontram uma passagem através da boca de um vulcão que os leva ao centro da Terra e lá vivem diversas aventuras, era tamanha que ele chegou a vender alguns de seus carros para ajudar a financiar o negócio”.

Journey to the centre of the Earth foi gravado no Royal Albert Hall London, em 18 de janeiro de 1974. Foi, de fato, um projeto ambicioso de Rick Wakeman, pelo qual ele lutou e insistiu muito; ainda bem.

 

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